A PROBLEMÁTICA DA SEMANA.Teorização metafísica. Ou apenas estupidez.
Sorrir é algo só reservado a quem ama. Quando não se ama, sorrir é apenas dentes a descobertoDiário de um Humano
07/12
A tristeza de não ser mais do que aquilo que deixei de ser. De não fazer mais do que aquilo que deixei por fazer. Sou os sonhos que não realizei, os passos que não dei. Sou a vida, sim, que não vivi. E é assim que vivo, entre pensamentos de que sou e a lucidez, sempre temporária mas sempre triste, de que não sou. De que não consigo ser. Os dias, lentos e parcimoniosos, são leves brisas de tempo, folhas que o vento, sem esforço, carrega para o destino final. Escrevo porque só sei escrever. Escrevo porque nada sei fazer. E aguardo que, letra a letra, se vá, imagem a imagem, o sonho prometido. E aguardo que, sonho a sonho, se vá, promessa a promessa, o destino ansiado. Sou, mais do que o que sou, o que não sou: o que não fui capaz de ser. Fiquei a meio, sempre a meio, do que desejei finalizar. Meio escritor, meio humano, meio poeta e meio insano, meio senhor, meio criança, meio sorriso na meia infância. Fiquei a meio, sempre a meio, do que desejei finalizar. Fui o quase génio, o quase artista, o quase pedinte, o quase louco. Fui quase feliz, quase gente – o triste demente, quase. Sou quase, sou meio. Porque sou, mais do que o que sou, o que não sou. Porque sou, mais do que o que sou, o que não fui capaz de ser: o que não sou capaz de ser.
08/12
Ao jantar, gente em tumulto no centro de comércio tumultuoso. Por detrás do balcão, um jovem de borbulhas no rosto e uma jovem de carnes em chamas jogam o jogo da sedução. Um sorri pelo sorriso do outro – e ambos julgam sorrir pelas palavras que dizem ou ouvem. Sorrir é um estado de alma – um estado em que o que se vê é tudo: excepto aquilo que se vê. Sorrir para quem se ama é a mais fiel das provas de amor. Sorrir é algo só reservado a quem ama. Quando não se ama, sorrir é apenas dentes a descoberto. Entendo o que eles, actores em pleno acto de representação, não entendem. E deixo-os continuar. Peço o que tenho a pedir e percebo que o que ele, o que me atende, apontou é completamente diferente daquilo que eu pedi. E deixo-o continuar. E deixo-os continuar. Ela vai limpando a máquina de café e limpando-se a alma, esgueirando-se de corpos tocados e de olhares trocados para os olhos dele – que continua, sorriso por sorrir, a olhar-me para a continuar a ver. Despeço-me com a refeição que não pedi e sei que vou sorrir como eles sorriem ao imaginar os sorrisos que eles vão continuar, sem mim como sempre estiveram, a sorrir. Ainda visito, de relance, os olhos uma última vez, por detrás do balcão, a amarem o chão que um limpa e o tabuleiro que o outro prepara. Nada do que fazem deixa de ser o que sorriem. Porque amar, quando se ama, não passa de tudo o que é. Porque amar, quando se ama, não passa.
09/12
Escrever as letras –
para riscar as lágrimas.
Um dia, todo um dia, a olhar para a letra que se une à letra, para o texto que se une à fuga. Um dia, todo um dia, à espera de um motivo para mais um dia.
Pedro Chagas Freitas


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