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A PROBLEMÁTICA DA SEMANA.Teorização metafísica. Ou apenas estupidez.

Autor: Noticias de Guimarães em Quarta-feira, 23 Dezembro 2009Sem Comentários

Mais do que o espelho da alma, os olhos são o bidé da alma. É nos olhos, e pelos olhos, que lavamos aquilo que de mais íntimo possuímos.

Diz-me, meu animal:
quanto valem os olhos?

Olhar nos olhos de alguém é despir alguém. E olhar nos olhos de quem se ama é tudo. Ou, no caso de quem ama o Pedro Abrunhosa, é absolutamente nada.

Os olhos, dizem, são o espelho da alma. Mas, mais do que o espelho da alma, os olhos são o bidé da alma. É nos olhos, e pelos olhos, que lavamos aquilo que de mais íntimo possuímos. E é neles que fica o que tem de ser extirpado: o que tem de ser exorcizado
(nunca sentiste os olhos de quem amas a tirarem-te de ti – a despirem-te de ti?).

Os olhos, dizem, não mentem. Mas, mais do que não mentirem, os olhos não sentem. Os olhos dão a sentir – e provocam tempestade, e provocam bonança, e provocam tranquilidade
(e até mesmo Axa e Groupama e Logo e TeleSeguro
- Olá, fala a Marta. Em que posso ser útil?).
Os olhos são catalisadores de sentimento. É essa a sua mentira. A mentira que nos embala. A mentira que, por ser verdadeira, nos engana.

Olhos que não vêem, dizem, coração que não sente. Mas, mais do que não fazerem o coração sentir quando não vêem, os olhos não sentem quando o coração não vê. Porque é ele, o coração, que realmente define o que estás a ver. Imagina: a mulher que amas nos braços de um homem que não és tu. O que é que tu vês – o que é tu só consegues ver? Vês ciúme, vês – mesmo – inveja daquele homem. Vês, só vês, uma imagem que te magoa de tão feia – que te martiriza de tão execrável. E, no entanto, factualmente o que ali está é algo de bem diferente: está uma mulher nos braços de um homem; está carinho; está ternura; está até, isso mesmo, amor. Os teus olhos são, como todos os olhos, prostitutas de preço baixo – prostitutas de baixo nível. E esse é, provavelmente, o nível mais alto da tua sensibilidade: o patamar mais extremo do que te faz sofrer.

É nos olhos, dizem, que se esconde a humanidade de cada um de nós. Mas, mais do que a humanidade de cada um de nós, é nos olhos que se esconde a animalidade de cada um de nós: a essência intangível de cada um de nós. Só quem não é capaz de olhar, bem fundo, nos olhos de um cão, ou de um gato, ou de um boi, não lhes consegue ver a dimensão de não-corpo – a dimensão, chamemos-lhe assim, de pessoa. Há, em cada animal, uma pessoa
(a recordação: na noite do Pinheiro, na primeira noite de Pinheiro da minha vida, ternos 14 anos de existência, os olhos dos bois que puxam a carroça nos meus olhos, e as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto, lágrimas de encontrar, naqueles pares de olhos, tristeza, amargura, infelicidade; olhos que me pediam, desesperadamente, socorro, olhos humanos, olhos de gente; e em redor as pessoas de álcool sem freio, a maltratarem-nos: o chicote, no lombo indefeso, a estalar-lhes na alma – e a certeza, nessa primeira noite de Pinheiro, de que há humanidade em cada animal; e a incerteza, nessa primeira noite de Pinheiro, há tantos tantos anos, de que há humanidade em cada humano).
E há, em cada pessoa, um animal. Eu sou – é isso pelo menos o que as minhas companheiras, amiúde, me dizem (vá lá saber-se porquê) em momentos de grande intensidade carnal – um cavalo. E tu: já sabes qual és?

Pedro Chagas Freitas

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