A problemática da semana. Teorização metafísica. Ou apenas estupidez
Gostas de festas? Fogo!
Diz-me: acreditas em Deus? Sim? E agora diz-me: porque raios acreditas na Igreja e nos padres? Pois.
Acreditar que os padres são os mensageiros de Deus é como acreditar que as Spice Girls são as mensageiras da inteligência. Agora tira daí as tuas conclusões.
Os padres são os Oliveira e Costa dos pequenos – as criaturas que não se coíbem de, em crise ou não, ir buscar dinheiro à esquerda e à direita. São raros – tenho mesmo dúvidas se ainda existem – os padres que não cobram (e alguns ao preço do ouro) a celebração de um qualquer evento católico. São todos – ou quase todos (há que ter esperança) – os que conseguem friamente exigir dinheiro a quem lhes pede, apenas, que lembrem, na sua homília, um familiar recentemente desaparecido. Vou ser claro contigo – tenta entender de uma vez: um padre pode até, aqui e ali, assemelhar-se a Deus; mas assemelha-se mais, quase sempre, a um empreiteiro prestador de serviços. O facto de não passar recibos verdes é outra questão. E nada católica. Vamos a ela.
Um facto: porque diabos não podes tu fazer barulho antes das sete horas da manhã e aos fins-de-semana e os sinos de uma igreja podem tocar durante longos minutos – e acordar-te sem que se possa fazer algo para o evitar? Pensa nisso. Dou-te alguns segundos. Força.
Outro facto: diz a lei que, a partir das 22 horas, não pode fazer-se ruído – ruído a sério, daquele que incomoda quem quer descansar. Pois bem: este que vos escreve queria descansar. Nem mais: no passado Sábado, já o relógio apontava 0h30, eu era o gajo que necessitava – exausto e com o fado de acordar cedo no dia seguinte – de descansar. De dormir – e bem. Mas a Igreja, em honra de Nossa Senhora do Rosário, tinha ideias diferentes – e lembrou-se de, a essa hora, lançar foguetes para o ar. Não um, não dois – dezenas (talvez centenas) deles. Ao longo de mais de 20 minutos, um estrondoso espectáculo de fogueteiro (a igreja lá saberá quem pagou tamanha ostentação). O que diz a lei: a partir das 22 horas – e ainda mais ao fim-de-semana – nada de barulho que incomode quem quer descansar. O que fazem as autoridades competentes (que deveriam, severamente, regular) perante as romarias católicas e populares que ignoram qualquer limite a este nível? Nada – absolutamente nada. Haverá, provavelmente, autorizações concedidas. Por quem? Sustentado em que critérios? Não entres por aí – isso já são contas de outro rosário. Relaxa.
Não gostas de foguetes? Queres descansar? Esquece lá isso. Aguenta-te à bronca e desfruta do espectáculo. E que espectáculo, devo dizer-te. Anota aí: os foguetes foram tantos e tão giros que houve palmas, gritinhos de satisfação, muitos risos. E até um incêndio. Um daqueles a sério – com chamas de muitos metros e muita floresta queimada. Uma maravilha. Assim sim, vale a pena usufruir de uma festa.
Mas desengana-te: acredito, ainda assim, que os padres têm um papel útil para a sociedade. Sobretudo se for uma sociedade por quotas ou anónima. Se precisarem de um sócio não-capitalista, podem contactar-me pelo e-mail colocado aí em cima. Agradeço.
No fundo é isto: tenho todo o respeito pelos crentes e pela sua fé; mas exijo ser respeitado por eles na exacta mesma medida. Se eu ou tu, um dia, nos lembrarmos de lançar foguetes para o ar às duas da manhã em nome da nossa fé na “Santa das Duas da Manhã e do Bom Vinho” quanto tempo achas que demorará até a PSP nos bater à porta? Está entendido? Então diz lá comigo (sim: como se estivesses na igreja): ouvimos, Pedro. Obrigado.
Vamos a isto só mais uma vez – para acabar. Diz-me: acreditas em Deus? Sim? E agora diz-me: porque raios acreditas na Igreja e nos padres? Pois.
Pedro Chagas Freitas
Muitos parabéns pelo artigo e pela sua pertinência.
Não esquecendo para além dos foguetes, os altifalantes associados a estas festas que começam a pregar com 8 a 10 dias de antecedêcia, com músicas, missas, terços, para serem ouvidos na aldeia e concelhos vizinhos. É inacreditável e enedótico que esta situação permaneça ainda hoje,com a conivência das autoridades e dos políticos que não conseguem por cobro a esta pouca vergonha.
A maioria detesta,muito poucos gostam e todos consentem.
Os meus cumprimentos
É a sociedade que temos.
Haja muitos como o Chagas Freitas, que não tem medo de colocar o dedo na ferida.
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