Utentes com paralisia cerebral já têm salas Snozelen
APPC: 15 ANOS DE ACTIVIDADE GANHAM NOVO ‘ESTÍMULO’
O 15º Aniversário da Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães ficou marcado, no último sábado, pelas “I Jornadas da APCG” realizadas na Universidade do Minho (ver texto próprio) e pela inauguração de duas salas de estimulação sensorial “Snozelen”, na sede da associação, em Penselo.
Durante a visita às mesmas, as explicações da técnica Branca Ornelas acrescentaram ao sentido do que nos parece puramente belo ou lúdico, uma visão esclarecedora acerca do muito que é possível fazer para ultrapassar barreiras físicas e de comunicação, impostas pelos limites do corpo, que aprisionam um mundo de movimento e ideias por descobrir na mente e na imaginação de muitas crianças e jovens com paralisia cerebral.
A técnica mostrou como funciona a prática “Snozelen”, através do equipamento das salas “branca” e “preta” – esta assim denominada dado que nas paredes há alguns painéis pretos e, ao recorrer à luz infravermelha, com a iluminação apagada, as zonas brancas e de cor contrastam e tornam-se iridescentes. É o que acontece, por exemplo, à água borbulhante de uma coluna em acrílico que assume cores translúcidas e vivas – vermelha, laranja, azul e verde – cada vez que a criança carrega num botão com a cor correspondente.
Nesta sala existe ainda um sistema de blocos de luz colorida, os quais são activados através da vibração de batidas no chão; um sistema de projecção de imagens e outros equipamentos, como um baloiço para trabalhar o equilíbrio, melhorar a postura e ajudar, por exemplo, a criança a colocar a cabeça direita. Há ainda um painel com vários objectos correntes, bolas, tubos ondulados por onde se metem bolas e muitos outros elementos com diferentes texturas.
Na sala branca, o objectivo é o mesmo – estimular as funções cognitivas e de comunicação da criança e trabalhar a função motora – mas o trabalho é feito sobretudo com a luz acesa. Aqui, também há colunas de água interactivas; uma piscina com muitas bolas coloridas; um plasma que imite vários efeitos visuais que se activam pela voz e um sistema de iluminação que projecta diferentes cores numa bola de espelhos, colocada no tecto, criando efeitos luminosos nas paredes no tecto e inclusive sobre um colchão branco que assume a forma do corpo da criança.
Equipamento
dispendioso doado
para preencher lacuna
O equipamento de estimulação sensorial “Snozelen” – avaliado em 51 mil dólares, o equivalente a cerca de 36 mil euros – foi doado pelo Rotary Club de Guimarães (RCG) e pelo Rotary Club de Leicester (Inglaterra), numa parceria apadrinhada pela Rotary Foundation, sendo que os respectivos presidentes, delegado e coordenador do projecto destas instituições, Robert Mansfield, Joaquim Freitas Pereira, José Guimarães e Sérgio Pousada foram os convidados de honra desta inauguração, onde marcou presença também, o Vereador César Machado.
Os presidente e vice-presidente da direcção da APCG, Joaquim Oliveira e Américo Correia, foram os anfitriões, tendo Américo Correia intervido para notar que “a ausência das salas de Snozelen constituía para nós uma lacuna na área da reabilitação, resultante da falta de espaço e de dinheiro”. Dois problemas ultrapassados. Um, através da obra que retirou alguns metros ao pé-direito do ginásio, permitindo criar as salas no andar acima. Outro, “após um primeiro contacto os rotários nos responderam logo que sim e abraçaram este projecto que assenta em instrumentos de estimulação sensorial fundamentais para a reabilitação os nossos utentes”, frisou, avançando que o equipamento estará ao dispor das escolas que dele necessitem.
César Machado aceitou o repto de submeter à apreciação da Câmara um pedido de apoio à obra e sublinhou o papel dos Rotários e o trabalho da APCG, agradecendo “a todos quantos saem e saíram do sofá para fazer algo pelos outros.”
“Esperamos que estas salas proporcionem magia e apoio prático a muitos jovens e adultos e que a nossa relação se mantenha por muitos anos”, desejou Robert Mansfield que discursou em português. “Foi uma ‘joinventure’ de sucesso”, disse ainda, referindo-se à parceria com o RCG, presidido por Freitas Pereira, que lembrou “o papel dos presidentes João Monteiro – que há três anos estabeleceu esta aliança com o R.C. Leicester – e Orlando Martins – que, em 2008, deu todos os passos – para que pudéssemos doar este equipamento para melhorar a qualidade de vida dos utentes da APCG”.
O que é o Snoezelen?
O conceito da prática Snozelen, originário da Holanda, proporciona conforto, através do uso de estímulos controlados e oferece uma grande quantidade de estímulos sensoriais (música, notas, sons, luz, estimulação táctil e aromas) que podem ser usados de forma individual ou combinados.
Esta terapia desenvolve-se em salas próprias para o efeito, cujo ambiente é seguro e não ameaçador, promovendo a confiança, o auto-controlo, a autonomia, a descoberta e a exploração, bem como efeitos terapêuticos e pedagógicos positivos, trabalhando inúmeras competências.
O ambiente multisensorial permite estimular os sentidos primários dos utentes tais como o toque, o paladar, a visão, o som, o cheiro, sem existir necessidade de recorrer às capacidades intelectuais dos indivíduos.
I Jornadas da APCG<br>REABILITAR PARA INTEGRAR
As “I Jornadas da Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães” foram dedicadas à apresentação dos últimos dados sobre a incidência desta patologia; avanços nas técnicas de reabilitação; necessidades das famílias; legislação e apoios, entre outros temas como a sexualidade e a actividade desportiva na vida da pessoa com deficiência, vertente sublinhada pela experiência da APCG no âmbito do desporto adaptado “Boccia”.
O seminário – marcado pela reflexão sobre a relação entre as pessoas com paralisia cerebral e os profissionais da área, pais e sociedade em geral – contou ainda com um espectáculo de “Yoga para todos” protagonizado por jovens da APCG e outro de dança inclusiva pelo Grupo de Dança do Estrela e Vigorosa Sport.
Na sessão de abertura esteve a Directora o Instituto Nacional para a Reabilitação (INR), Alexandra Pimenta, que interveio após o presidente da Direcção da APCG e do presidente da Câmara Municipal, sendo que o edil António Magalhães elogiou “o trabalho extraordinário da APCG, a vossa intervenção de exigência que não pode passar ao lado da população”e disponibilizou o apoio da CMG.
Joaquim Oliveira agradeceu “a todos os ajudaram a APCG ultrapassar as suas dificuldades e a torná-la numa instituição de referência” e desejou “que estas jornadas acrescentem um pouco mais do vosso saber ao nosso saber.”
A directora do INR – organismo inserido no Ministério de Trabalho e Solidariedade Social que actua em três áreas fundamentais (a promoção da igualdade de oportunidades, da acessibilidade e da participação na sociedade civil, através do acesso a financiamento a iniciativas por quem presta serviço na área do apoio a pessoas da deficiência) – explicou que “o instituto exerce influência sobre instituições públicas e privadas, bem como ao nível da legislação no sentido de se introduzirem alterações que promovam a integração”. Concluiu com um apelo a que todos dessem a conhecer situações, reclamações, sugestões e projectos para melhorar a situação das pessoas com deficiência, através do site www.inr.pt.

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